segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

"Nossos velhos pais heróis e mães rainhas do lar... 
Passamos boa parte da nossa existência cultivando estes estereótipos. Até que um dia o pai herói começa a passar o tempo todo sentado, resmunga baixinho e puxa uns assuntos sem pé nem cabeça. A rainha do lar começa a ter dificuldade de concluir as frases e dá pra implicar com a empregada. O que papai e mamãe fizeram para caducar de uma hora para outra? Fizeram 80 anos. Nossos pais envelhecem. Ninguém havia nos preparado pra isso. Um belo dia eles perdem o garbo, ficam mais vulneráveis e adquirem umas manias bobas. Estão cansados de cuidar dos outros e de servir de exemplo: agora chegou a vez de eles serem cuidados e mimados por nós, nem que pra isso recorram a uma chantagenzinha emocional. Têm muita quilometragem rodada e sabem tudo, e o que não sabem eles inventam. Não fazem mais planos a longo prazo, agora dedicam-se a pequenas aventuras, como comer escondido tudo o que o médico proibiu. Estão com manchas na pele. Ficam tristes de repente. Mas não estão caducos: caducos ficam os filhos, que relutam em aceitar o ciclo da vida. É complicado aceitar que nossos heróis e rainhas já não estão no controle da situação. Estão frágeis e um pouco esquecidos, têm este direito, mas seguimos exigindo deles a energia de uma usina. Não admitimos suas fraquezas, seu desânimo. Ficamos irritados se eles se atrapalham com o celular e ainda temos a cara-de-pau de corrigi-los quando usam expressões em desuso: calça de brim? frege? auto de praça? Em vez de aceitarmos com serenidade o fato de que as pessoas adotam um ritmo mais lento com o passar dos anos, simplesmente ficamos irritados por eles terem traído nossa confiança, a confiança de que seriam indestrutíveis como os super-heróis. Provocamos discussões inúteis e os enervamos com nossa insistência para que tudo siga como sempre foi. Essa nossa intolerância só pode ser medo. Medo de perdê-los, e medo de perdermos a nós mesmos, medo de também deixarmos de ser lúcidos e joviais. É uma enrascada essa tal de passagem do tempo. Nos ensinam a tirar proveito de cada etapa da vida, mas é difícil aceitar as etapas dos outros, ainda mais quando os outros são papai e mamãe, nossos alicerces, aqueles para quem sempre podíamos voltar, e que agora estão dando sinais de que um dia irão partir sem nós." 
Martha Medeiros







Para as dores causadas por aqueles que nos machucam, Deus nos manda aqueles que nos curam.



A Vida


A vida é azul e cheira a mar.
É um pássaro e uma árvore que cresce.
A vida é o luar e a noite que desce para te abraçar.
É música triste. É música alegre.
É um filme! 
É uma comédia, é um drama...
 um romance, é uma tragédia!
É terror, é ação, é suspense! 
É amor!
A vida é o relógio. É o tempo.
É o sol... É chuva. 
É o verão!
A vida és tu. A vida sou eu.
É o teu irmão! 
É o teu patrão...
A vida é o emprego. E o dinheiro.
É o Natal e os presentes também.
É o bacalhau e os doces. E as férias!
É a confusão!
A vida é Agosto! A vida é desgosto.
A vida é à gosto!
É rir. É chorar. É chorar a rir. É partir.
A vida é ficar. É ir e não voltar. 
É amar!
A vida é sexo. É prazer!
É poder. É querer. É acreditar e vencer!
É uma esperança. É uma criança.
A vida é um filho!
A vida é um Adeus. É um princípio.
É um fim. A vida é um não, é um talvez, é um sim!
É uma palavra!
É um texto grande! É um poema !
Às vezes, um versículo!
A vida é uma borboleta. É uma baleia!
Uma aranha e uma teia!
É um comboio. É um avião.
É um tum tum. É um coração!
A vida é luz. É escuridão. É o nevoeiro.
É sombra de um pessegueiro.
A vida são momentos bons e maus...
Ilusões e desilusões...
Amores e desamores.
A vida é uma amálgama de emoções!
A vida é cor!
É azul. Às vezes é cinza.
Também muitas cores!...
Muitos cheiros... descobertas.
É chuva! É lágrima!
É sorriso e gargalhada!
É sonho, é paixão!
A vida é amor!
A vida nem sempre é a que queremos...
Ou a que achamos que merecemos.
Por vezes parece-nos negra,
outras vezes, um arco-íris!
É dor!
É esperança!
É ser e ter um porto de abrigo!
É saber chorar...
É saber secar as lágrimas... 
nossas e do próximo.
A vida é amar!
A vida é amor!
A vida é o que tu quiseres!
E a sua vida, o que é?





Na rua sossegada onde moro, - à tardinha,
quando em sombras o céu lentamente escurece,
- um piano solitário, em surdina, - parece
acompanhar ao longe a tarde que definha...

Nessa hora, em que de manso a noite se avizinha,
seus acordes pelo ar tem murmúrios de prece...
- Ah! Quem não traz como eu também, na alma sozinha,
um piano evocativo que nos entristece?

Há sempre um velho piano de bairro, esquecido
na memória da gente, - e que nas tardes mansas
sonoriza visões de outrora ao nosso ouvido.

Seus monótonos sons, seus estudos sem cor,
repetem no teclado branco das lembranças
o inconcluso prelúdio de um longínquo amor!

J. G. de Araújo Jorge


Triste

Eu hoje acordei triste, - há certos dias
em que sinto esta mesma sensação,
e não sei explicar, qual a razão
porque as mãos com que escrevo estão tão frias...

E pergunto a mim mesmo: - tu não rias
ainda ontem tão feliz? ... Diz-me então
por que sentes pulsar teu coração
destoando das humanas alegrias?...

E, nem eu sei dizer por que estou triste ...
Quem me olha não calcula com certeza,
o imenso caos que no meu peito existe ...

A tristeza que eu sinto ninguém vê...
- E a maior das tristezas é a tristeza
que a gente sente sem saber por quê..

J. G. de Araújo Jorge





Ama Teu Próximo Como a Ti Mesmo


*Judi Penner
Hoje acordei do lado errado da cama - na verdade, do lado errado do mundo. Eu queria mesmo era voltar para a cama, dormir um pouco mais e, quem sabe, acordar  sem a descoloração do meu mundo. Quem me pusera os óculos escuros que me deixavam tão desalentada e me faziam enxergar  o copo meio vazio? Eu devia estar saudando este dia fresquinho e ensolarado  com alegria no coração e energia nos meus passos. Em vez disso, ainda havia um acréscimo de culpa ao meu repertório de emoções. Ah, vai ser um daqueles dias! Ou não?

Estou começando a me conhecer, a saber que essas emoções sombrias são uma reação  a algo. Embora machuque, esquadrinho meu coração à procura da experiência sepultada. É como procurar um pé de meia perdido dentro do cesto de roupa lavada. Minha mente passa em revista os eventos de ontem, e sei o que incomoda, tão logo me permito admitir o que aconteceu.
Foi a experiência de ser insignificante.

Mesmo enquanto escrevo, meu coração sofre com a dor da lembrança - estar presente, mas não ser aceita; falar com medo de saber que o que você diz está errado, principalmente porque vem da sua boca; adaptar o comportamento na esperança de receber a confirmação do valor, mas vê-lo negado. Todos já passamos por isso - e dói.

Tenho lutado há anos, tentando ser a pessoa que todos amam. Tentei fazer isso através das coisas que fiz ou disse. O resultado, porém, foi a visão distorcida de que o valor se baseia em comportar-se, e não em ser. Sei que o amor de Jesus não se baseia naquilo que faço. Na verdade (graças a Deus!), ele está presente - a despeito do que faço! Contudo, percebo igualmente que aquilo de que meu coração necessita é que eu me ame também. 

Jesus disse: "Ame o Senhor seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento.[...] Ame o seu próximo como a si mesmo" (Mateus 22:37-39). Essas ordens incluem três direções do amor: amor a Deus, amor ao próximo e amor a si mesmo. Não mascare a falsa humildade com a negligência em amar a si mesmo e cuidar de si. Dê aquele passeio, tome um banho de espuma ou tire um tempo para ficar a sós. E  lembre-se de se dar um abraço. 

*Judi Penner mora no Canadá com a família e é professora no ensino fundamental.









domingo, 11 de janeiro de 2015




Se estou só, quero não estar,
Se não estou, quero estar só,
Enfim, quero sempre estar
Da maneira que não estou.

Ser feliz é ser aquele.
E aquele não é feliz,
Porque pensa dentro dele
E não dentro do que eu quis.

A gente faz o que quer
Daquilo que não é nada,
Mas falha se o não fizer,
Fica perdido na estrada

Fernando Pessoa







Totalmente aceito

[Deus] nos escolheu, [em Cristo], antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor. Efésios 1.4

Durante toda a minha vida busquei ser aceita e lutei por isso. Tirar boas notas, fazer horas extras, até aceitar um tratamento indelicado da parte dos outros - fazia de tudo para obter aprovação. Cresci na pobreza e meu pai abandonou-nos. Sentia que não era digna de amor como outras pessoas que vinham de famílias "normais".
Agora, na meia-idade, entendo que mesmo os mais confiantes anseiam por aceitação. Todos nós precisamos de aprovação por aquilo que somos por dentro. É por isso que certos atores e personalidades públicas vivem ou morrem pelos caprichos de um público volúvel.

Mas, mesmo que consigamos conquistar aplausos e troféus, o vazio que experimentamos só pode ser preenchido por Deus. Por quê?
Porque somente a fé em Deus traz verdadeira segurança. Nós somos aceitos; tornamo-nos pessoas completas. Mas isso é obra de Cristo, e não consequência de algo que tenhamos feito; nós não podemos ser suficientemente bons ou conquistar o bastante para obter a aceitação de Deus.
Deus nos aceita por amor e graça ilimitados. Independentemente de nosso passado, nossos erros, nossos pecados, Ele nos aceita!

Alicea Jones (Texas, EUA)


Oração: Senhor amado, nós Te agradecemos por aceitares cada um de nós como Teus. Ajuda-nos a perceber o quanto nos amas. Ajuda-nos a parar de buscar aprovação e a descobrir nosso verdadeiro valor em Ti. Em nome de Jesus. Amém




sábado, 3 de janeiro de 2015

"Viver ou existir, eis a questão"

Minha sede se parece à da corça perdida, que suspira por um regato. Anseio viver. O passar do tempo impôs uma questão essencial: quando, finalmente, encontrarei coragem para embarcar na aventura de desdobrar a existência em vida?
Viver e existir se diferenciaram qualitativamente. Existir cumpre a sina biológica de preencher a lacuna entre o nascer e o morrer. Viver confere significado ao tempo – àquele hífen que há de separar as duas datas que constarão em minha lápide.
Viver significa hospedar beleza dentro da gente; é jeito de agasalhar o que percebemos com o coração. Se existe alguma sublimidade no universo, ela deve começar a partir do nosso olhar. A única beleza possível é a que retemos. Não existe esplendor descolado da contemplação. O barulho de uma árvore, ao tombar na floresta, inexiste se não houver alguém por perto para escutá-lo.
Sem nosso olhar, o arco-íris jamais poderá dar qualquer esplendor ao universo – ele depende das conexões e analogias que fizermos. Um prado congelado se compara ao que desejarmos. Um sertão calcinado pelo sol tem força de remeter à coragem. (O sertanejo é antes de tudo um forte!) Para o poeta, tanto faz a neve alva e fresca da cordilheira como o areal perolizado e incandescente da duna. A vida transcenderá nos infinitos significados que damos ao que nos rodeia.
Quando vivemos, povoamos o coração de memórias vivas. Só as recordações salvam nossa interioridade da insipidez mecânica da vida. A realidade estéril mata. Sem poesia, a vida empobrece e mirra. Marcel Proust provou um biscoito madeleine e o passado se atualizou. Bastou-lhe o paladar para sair Em busca do tempo perdido.
Eu cheiro farofa com cebola na manteiga e, imediatamente, volto à cozinha de minha avó. O gosto de qualquer remédio travoso me devolve o rosto bondoso da minha mãe. Não tolero rede que range nos ganchos – na sala onde dormi, o ranger das redes me amedrontava como o piado de uma coruja agourenta. Se entro em algum ônibus e procuro a janela é porque ali, quando era menino, eu me senti isolado para meditar.
Viver é desabotoar a alma e nunca deixar que a grandiosidade do que está lá fora passe desapercebido. A vida acontece em lugares e instantes triviais: o ancoradouro, o crepúsculo, o sorriso indisfarçável da criança, a despedida dolorida, a alegria da conquista. Na celebração do instante único, não esquecemos: a história nunca se repetirá (Desculpe, Nietzsche.) Vive quem medita no mistério, intui o belo e floresce no delicado imperativo de celebrar o eterno.
No viver, desafiamos limites. Criados com a eternidade no coração, carregamos o imperativo de sonhar para além do possível. O improvável nos fascina. Vive quem não se acomoda, mas se atreve na direção do horizonte, sempre a se afastar de nós; no viver, ousamos desbordar a linha que junta céu e mar.
Em nossa gana de viver temos capacidade alquímica até de transformar pedregulhos em esmeraldas. Cabe qualquer exagero em nosso anelo pelo inefável. Algum tesouro se esconde na trilha bucólica e apertada por onde bem poucos peregrinos se aventuram.
Os que ousam, tornam-se arautos da esperança e artesãos de uma nova história. Os segredos do porvir só serão conhecidos por viajores insistentes. Eles já sabem: a vida está no percurso, nunca na chegada.
Soli Deo Gloria
Por Ricardo Gondim



Impressionista
Alia Prado


Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.