segunda-feira, 9 de março de 2015
Nosso coração está cheio de som.
As batidas que saem dele se confundem com os graves e agudos da melodia que criamos interiormente.
A música preferida é só uma chave para percebermos em que ritmo estamos naquele momento.
Vivemos de ritmos e produzimos sons o tempo inteiro.
Quando você está no trabalho, em casa, na rua, em todos os lugares, em cada coisa que toca, deixa ali um pouquinho da sua melodia.
Diga-me: o que tem te tocado ultimamente ?
Que tipo de som tem coincidido com o que sai de você, a ponto de criar identificação ?
Você é a música.
Acerte o compasso.
Regule os graves, médios e agudos e afine o que está desafinado. Como todo compositor, talvez você precise de inspiração.
Preencha os olhos, ouça o que é bom, alimente seu coração e, naturalmente, componha boa música.
Acredite na possibilidade de novos ritmos.
Ás vezes é necessário mudar a frequência.
Mexa em sua programação, acerte-se consigo mesmo e produza novos sons.
Talvez seja isso que esteja faltando para colher frutos melhores e se acertar consigo mesmo.
Você é o compositor!
Flávio Siqueira
sábado, 7 de março de 2015
A música popular perdeu o tom
Nos últimos dias de sua vida, Tom Jobim pedia a sua irmã Helena para que lesse o Salmo 23, aquele do “O Senhor é meu pastor e nada me faltará...”. Olhando a obra musical de Tom, o que não falta é música que parece ter a centelha da arte mais divina.
Sua combinação de melodia enganosamente simples com harmonização rigorosamente complexa trouxe à música popular brasileira um sabor diferente, um jeito diferente, uma nova bossa.
Até o advento de “Ai seu eu te pego”, hit do Michel Teló, a canção brasileira mais conhecida no exterior era “Garota de Ipanema”. Assobie essa canção e perceba como a melodia sobe e desce sem esforço, como o desenho de ondas. Pode ter sido um achado genial involuntário, mas vindo de Tom, quem pode duvidar de que o balanço do mar e da garota que passa foram inscritos delicadamente na melodia sinuosa?
E a melodia de “Desafinado”, difícil e bela como a harmonia? E "Corcovado", em que a melancolia inicial de “Um cantinho, um violão” que deságua na alegria contida de “Ao encontrar você eu conheci o que é felicidade, meu amor”? E o encanto da repetição de letra, melodia e harmonia de “Águas de Março”?
No princípio, era “Chega de Saudade”. E a saudade se fez letra e música. As duas estrofes iniciais, uma queixa do amor distante, estão na tonalidade de Ré menor. No refrão, que promete o aconchego, a conjunção dos amores, a tonalidade passa para Ré Maior.
O clichê musical que associa tonalidade menor à tristeza e a maior à alegria ganhava, lá em 1958, uma obra-prima. Tudo feito com discrição e sofisticação. Afinal, isso é bossa nova, isso é muito natural.
Em Tom, o simples nunca é óbvio. Por causa da harmonização requintada, o simples ficava elegante. O “Samba de uma nota só” é o retrato em branco e preto do gênio jobiniano.
“Eis aqui esse sambinha feito numa nota só”, começa a canção, essa parte sendo cantada, de fato, repetindo-se a mesma nota. A letra avisa: “Outras notas vão entrar, mas a base é uma só”, e isso vai se confirmando musicalmente.
Lá na frente, a letra diz: “Já me utilizei de toda a escala e no final não sobrou nada”. Isso é cantado num passeio por diversas notas, subindo e descendo, até que se canta:
“E voltei pra minha nota, como eu volto pra você”, voltando-se à nota repetida do início.
Quando analiso com os estudantes essa canção nas aulas de História da Música Brasileira, nossa percepção é a mesma: a carpintaria genial de Tom se camufla de simplicidade.
Mas há também um outro Tom Jobim, o compositor do formidável “Urubu”, disco-síntese de sua obra musical com canções sobre seus temas principais (a natureza, o afeto, a mulher) e belas peças orquestrais. Nesse álbum, o popular parece erudito e o erudito tem acesso popular.
Tom foi daqueles compositores que souberam fundir os elementos da matriz musical brasileira com os caracteres da musicalidade que chegava do exterior. Em Tom, o deslocamento da acentuação rítmica no compasso (a síncope) achava uma melodia tão cheia de curvas como a arquitetura feminina de Niemeyer.
A sedução melódica de Tom encontrou nos versos afetuosos de Vinicius de Moraes o casamento ideal. Eles estavam mais interessados na felicidade do amor presente do que em cantar o amor que se foi. Não por acaso, eles geraram “Chega de Saudade”.
Em Tom, o Brasil ficava ainda mais bonito. Mas já passaram 20 anos de sua morte e a música brasileira atualmente mais conhecida no mundo mostra que a moda é o funknejo de uma onamatopeia só [ou, pra quem entender, de uma progressão harmônica só: VIm – IV – I – V) .
Harmonia simplificada, letra despoetizada, a natureza desencantada, o amor vulgarizado. Saímos do tom!
Por Joêzer ( Músico, Professor na PUC PR e autor do Livro: "Música e Religião na Era do Pop" - Ed. Appris)
Mas, Que Coisa !
O substantivo “coisa” assumiu tantos valores que cabe em quase todas as situações cotidianas.
A palavra “coisa” é um bombril do idioma. Tem mil e uma utilidades. É aquele tipo de termo-muleta ao qual a gente recorre sempre que nos faltam palavras para exprimir uma ideia. Coisas do português.
A natureza das coisas: gramaticalmente, “coisa” pode ser substantivo, adjetivo, advérbio. Também pode ser verbo: o Houaiss registra a forma “coisificar”. E no Nordeste há “coisar”: “Ô, seu coisinha, você já coisou aquela coisa que eu mandei você coisar?”.
Coisar, em Portugal, equivale ao ato sexual, lembra Josué Machado. Já as “coisas” nordestinas são sinônimas dos órgãos genitais, registra o Aurélio. Na Paraíba e em Pernambuco, “coisa” também é cigarro de maconha.
Na literatura, a “coisa” é coisa antiga. Antiga, mas modernista: Oswald de Andrade escreveu a crônica O Coisa em 1943. A Coisa é título de romance de Stephen King. Simone de Beauvoir escreveu A Força das Coisas, e Michel Foucault, As Palavras e as Coisas.
Em Minas Gerais, todas as coisas são chamadas de trem. Menos o trem, que lá é chamado de “a coisa”. A mãe está com a filha na estação, o trem se aproxima e ela diz: “Minha filha, pega os trem que lá vem a coisa!”.
“Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça (…)”. A garota de Ipanema era coisa de fechar o Rio de Janeiro. “Mas se ela voltar, se ela voltar / Que coisa linda / Que coisa louca.” Coisas de Jobim e de Vinicius, que sabiam das coisas. Sampa também tem dessas coisas (coisa de louco!), seja quando canta “Alguma coisa acontece no meu coração”, de Caetano Veloso, ou quando vê o Show de Calouros, do Silvio Santos (que é coisa nossa).
Coisa não tem sexo: pode ser masculino ou feminino. Coisa-ruim é o capeta. Coisa boa é a Juliana Paes. Nunca vi coisa assim! Coisa de cinema! A Coisa virou nome de filme de Hollywood, que tinha o seu Coisa no recente Quarteto Fantástico. Extraído dos quadrinhos, na TV o personagem ganhou também desenho animado, nos anos 70. E no programa Casseta e Planeta, Urgente!, Marcelo Madureira faz o personagem “Coisinha de Jesus”.
Coisa também não tem tamanho. Na boca dos exagerados, “coisa nenhuma” vira “coisíssima”. Mas a “coisa” tem história na MPB.
No II Festival da Música Popular Brasileira, em 1966, estava na letra das duas vencedoras: Disparada, de Geraldo Vandré (“Prepare seu coração / Pras coisas que eu vou contar”), e A Banda, de Chico Buarque (“Pra ver a banda passar / Cantando coisas de amor”), que acabou de ser relançada num dos CDs triplos do compositor, que a Som Livre remasterizou. Naquele ano do festival, no entanto, a coisa tava preta (ou melhor, verde-oliva). E a turma da Jovem Guarda não tava nem aí com as coisas: “Coisa linda / Coisa que eu adoro”.
As mesmas coisas, Coisa bonita, Coisas do coração, Coisas que não se esquece, Diga-me coisas bonitas, Tem coisas que a gente não tira do coração. Todas essas coisas são títulos de canções interpretadas por Roberto Carlos, o “rei” das coisas. Como ele, uma geração da MPB era preocupada com as coisas. Para Maria Bethânia, o diminutivo de coisa é uma questão de quantidade (afinal, “são tantas coisinhas miúdas”). Já para Beth Carvalho, é de carinho e intensidade (“ô coisinha tão bonitinha do pai”). Todas as Coisas e Eu é título de CD de Gal. “Esse papo já tá qualquer coisa… Já qualquer coisa doida dentro mexe.” Essa coisa doida é uma citação da música Qualquer Coisa, de Caetano, que canta também: “Alguma coisa está fora da ordem.”
Por essas e por outras, é preciso colocar cada coisa no devido lugar. Uma coisa de cada vez, é claro, pois uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa. E tal coisa, e coisa e tal. O cheio de coisas é o indivíduo chato, pleno de não-me-toques. O cheio das coisas, por sua vez, é o sujeito estribado. Gente fina é outra coisa. Para o pobre, a coisa está sempre feia: o salário-mínimo não dá pra coisa nenhuma.
A coisa pública não funciona no Brasil. Desde os tempos de Cabral. Político quando está na oposição é uma coisa, mas, quando assume o poder, a coisa muda de figura. Quando se elege, o eleitor pensa: “Agora a coisa vai.” Coisa nenhuma! A coisa fica na mesma. Uma coisa é falar; outra é fazer. Coisa feia! O eleitor já está cheio dessas coisas!
Se você aceita qualquer coisa, logo se torna um coisa qualquer, um coisa-à-toa. Numa crítica feroz a esse estado de coisas, no poema Eu, Etiqueta, Drummond radicaliza: “Meu nome novo é coisa. Eu sou a coisa, coisamente.” E, no verso do poeta, “coisa” vira “cousa”.
Se as pessoas foram feitas para ser amadas e as coisas, para ser usadas, por que muita gente ama tanto as coisas e usa tanto as pessoas? Bote uma coisa na cabeça: as melhores coisas da vida não são coisas. Há coisas que o dinheiro não compra: paz, saúde, alegria e outras cositas mais.
Mas, “deixemos de coisa, cuidemos da vida, senão chega a morte ou coisa parecida”, cantarola Fagner em Canteiros, baseado no poema Marcha, de Cecília Meireles, uma coisa linda.
Bem, faça a coisa certa e não esqueça o grande mandamento: “amarás a Deus sobre todas as coisas”. Entendeu o espírito da coisa?
(Desconheço o autor)
Bons risos!
Ultimamente tenho tentado buscar um caminho que não me leve a dramatizar a vida. Tenho feito com que certas situações e circunstâncias não ganhem dimensões que não merecem.
Gratidão e bom humor tem sido meu alimento no meu dia-a-dia. Busco trazer para os meus pensamentos coisas boas e eliminando o que entristece e estressa. Na verdade estou aprendendo a educar meus pensamentos.
A neurocientista Sílvia Cardoso explica que: "Nossa capacidade de pensar coisas boas é que vai estruturar o cérebro de tal forma que vamos sentir coisas boas."
Minha dica é que você busque rir mais, seja leve, abra espaço para o bom humor, tenha bons amigos e celebre os bons momentos da vida.
Bons risos!
“Resumindo, amigos, o melhor que vocês têm a fazer é encher a mente e o pensamento com coisas verdadeiras, nobres, respeitáveis, autênticas, úteis, graciosas — o melhor, não o pior; o belo, não o feio. Coisas para elogiar, não para amaldiçoar.” Filipenses 4:8
Luciano Manga
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015
O Pão Que Veio do Céu
"Elias olhou ao redor e ali, junto à sua cabeça, havia um pão assado sobre brasas quentes e um jarro de água. Ele comeu, bebeu e deitou-se de novo." 1 Reis 19.6
*Ester Figueiredo Araújo
Éramos os primeiros residentes do bairro Alvorada I, em Manaus, Amazonas. Meus pais receberam terras do governo, e meu pai construiu um barraco na Rua Oito. "Era uma casa muito engraçada. Não tinha paredes, não tinha nada." Morávamos todos juntos: minha tia Maria, meus pais e minhas quatro irmãs. Eu tinha apenas 4 anos de idade, mas ainda me lembro.
Um dia, meu pai voltou do trabalho para casa. Nós crianças, esperávamos ansiosamente. Sabe, não havíamos tomado nossas refeições costumeiras naquele dia, e nossa mãe nos acalmou dizendo que o papai chegaria logo com um lanche. Normalmente, ele também trazia o almoço e o alimento para o dia seguinte. Entretanto, quando papai chegou, trouxe a notícia de que o dia havia sido ruim. Ele era um barqueiro, que ajudava as pessoas a cruzarem o Rio Negro de um lado para o outro, e vendia lanches aos passageiros. Mas chovera bastante naquele dia, e não haviam aparecido muitos fregueses. Ele acrescentou que o lanche que ele vendia "nadou", seu jeito de dizer que havia estragado. Sem dinheiro e sem lanche, nós, crianças, ficamos tristes e famintas.
Mas mamãe não perdeu a fé, reuniu a família e fez o culto vespertino como de costume. Pouco depois, era nossa hora de ir para a cama. Entretanto, ao nos prepararmos para dormir, alguém bateu à porta. Um carro havia parado na frente do barraco e alguém saiu, carregando uma caixa. Sem explicação nenhuma, o homem deixou a caixa em frente à nossa casa. Continha comida suficiente para alimentar nossa família por vários dias!
Nosso coração transbordou de alegria, e toda família se ajoelhou e deu graças a Deus pelo milagre que Ele havia operado. Assim como alimentou Elias no deserto, Deus alimentou Seus filhos, literalmente. Ele nos enviou aquilo que precisávamos. Em compensação, tudo o que Ele desejava era que não perdêssemos a fé. Mesmo antes de pedirmos, Ele providencia o necessário porque nos conhece muito bem.
Nós, as crianças, somos adultas agora, mas não nos esquecemos do milagre que ocorreu durante nossa infância. Na Bíblia podemos ler o seguinte: "Digam aos seus filhos o que aconteceu; que eles contem aos seus filhos, que eles falem sobre isso à geração seguinte" (Joel 1.3, NTLH). Assim, hoje nós o contamos aos nossos filhos, que contarão às outras gerações. E o nome de Deus será exaltado, para sempre e sempre.
*Ester Figueiredo Araújo é professora universitária, membro da Academia Itacoatiarense de Letras, e da Comissão científica da cidade de Itacoatiara, Amazonas, Brasil. Ela tem três filhos e quatro netos. Gosta de ler, fazer caminhadas e escrever.
***
Chuvas de Bênçãos
Na estação própria farei descer chuvas; haverá chuvas de bênçãos. Ezequiel 34:26
*Margaret Fisher
Os hinos me trazem muitas lembranças. Não é somente a mensagem da letra, mas são as coisas que aconteceram no momento em que os ouvia que permanecem novas e vivas no coração.
Quando eu tinha seis anos de idade, minha mãe soube de um curso de culinária oferecido ali perto. Mamãe estava começando a aprender inglês, e achou que isso ajudaria a entender inglês melhor, e que a ensinaria a cozinhar o alimento usado pelas pessoas em nosso novo país.
Foi depois da Depressão, uma época difícil para meu pai encontrar um trabalho permanente - ele trabalhava só meio expediente como mecânico. Recebia apenas uns 5 dólares por mês. Resmungava porque comíamos muita sopa, mas isso era praticamente tudo o que conseguíamos com o salário dele.
Mamãe queria ir ao curso de culinária. Custava 50 centavos, que era um bocado de dinheiro para nós, e papai não queria que ela fosse. Mas ela estava decidida. Isso deixou papai bravo, e todos os dias ele trazia à tona o fato de ela estar desperdiçando sólidos 50 centavos.
Na primeira aula, anunciaram que haveria um sorteio na sexta-feira seguinte, quando a aula terminasse. Mamãe não entendeu o que era um sorteio e ficou constrangida de perguntar, mas na sexta feira, dito e feito, realizaram o sorteio e mamãe foi premiada. Disseram-lhe que o entregariam em nossa casa. Não tínhamos ideia do que seria, mas ficamos muito eufóricos.
Pontualmente às 15 horas a campainha tocou. Ali estavam dois homens com uma enorme cesta cheia de produtos do mercado. Quando eles foram embora, mamãe disse: "Vamos esperar até que papai chegue antes de esvaziar a cesta." Ela continuou: "Ele vai ver que os 50 centavos não foram desperdiçados."
Quando finalmente papai voltou para casa, nós, as crianças, corremos para a porta e o puxamos até a cozinha. Seus olhos se arregalaram quando ele viu a cesta. Mamãe, sem pressa, foi retirando um artigo de cada vez, cantando durante o tempo todo um novo cântico que havia aprendido: "Que segurança, sou de Jesus!"
Havia sacos de açúcar, farinha, nozes, passas, fermento, leite em pó, condimentos e cinco laranjas - um raro produto, na verdade. Ao redor do topo da cesta havia maçãs e cachos de uvas. Papai nunca mais mencionou os 50 centavos.
E, ah, sim, todos aprendemos a cantar: "Que segurança, sou de Jesus!"
*Margaret Fisher e o esposo, Floyd, moram no Tennessee; têm cinco filhos e 16 netos. Margaret gosta de escrever, especialmente poesia. Já publicou alguns artigos e vários poemas. Ela aprecia tocar piano na igreja. Seu passatempo é fazer trabalhos manuais (artesanato).
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015
Os Olhares de Jesus
Olhar a vida de diferentes pontos de vista é uma atitude sábia que floresce no tempo de nosso próprio amadurecimento. Ver a vida com novos olhos é descobrir o que estava à nossa frente e não conseguíamos enxergar. O tempo nos ensina a olhar com maturidade. Inútil será querer ver o fruto quando a semente ainda está nascendo. O tempo reconcilia nossos olhares com a vida e conosco mesmos. Muitas são as maneiras de olharmos a vida.
Cada um olha a partir daquilo que a vida lhe ensina a olhar. Uns olham longe e acabam se perdendo na imensidão do que veem. Outros olham perto e não conseguem ir além do que estão vendo. Outros olham apenas para si mesmos e vivem fechados em um olhar individualista. Cada olhar é uma maneira única de nos encontrarmos com aquilo que vemos, e cada encontro precisa ter o olhar da sabedoria que ensina a ser mais humano. Múltiplos são os olhares e eles ganham as tonalidades que neles imprimimos. Há olhares de inveja que roubam a paz.
Há olhares de indiferença que fazem o outro sentir-se desprezado e humilhado. Há olhares de raiva que imprimem na alma as marcas da agressividade. Há olhares tristes que estão presentes em muitos e nos mostram o inverno rigoroso que fez morada em territórios misteriosos da alma. Mas também há os olhares que transmitem vida: o olhar da compaixão que acolhe; o olhar alegre, que nos faz sentir abraçados; o olhar da paz, que nos devolve o céu; de solidariedade, que nos une como irmãos e irmãs.
Nosso olhar revela o que passa em nossa alma. Captar o que ele quer dizer pode ser tarefa difícil. É necessária a sensibilidade de quem, um dia, aprendeu a olhar como o Mestre da Vida. Muitos olharam e foram olhados por Jesus; dentre todos estes olhares temos a certeza somente de uma coisa: quem olhou ou foi olhado por Jesus nunca mais foi o mesmo. O olhar do Senhor tinha a sensibilidade de devolver ao ser humano o sentido de sua existência. O silêncio do olhar divino escrevia novas frases de uma vida que se encontrava sem sentido.
Deixe ser tocado pelos olhos de Jesus!
Jesus olhou para a samaritana e lhe entregou uma fonte de água viva. Nunca mais aquela mulher teve sede de vida. A fonte de um novo tempo irrigou os canteiros daquela alma cansada de buscar uma água que não saciava a sede de modo definitivo. As águas da saciaram aquela alma sedenta brotavam de uma fonte viva. O balde foi deixado de lado, pois a fonte de água agora jorrava dentro dela mesma.
A pecadora tinha, diante de si, olhares que a condenavam. Quem rotulam o próximo já foi, antes, rotulado pelos próprios pecados de quem olha. Jesus sabia que aqueles olhares estavam contaminados pelos próprios pecados de quem olhava os erros daquela mulher. O outro é um espelho que nos indica o que em nós precisa ser mudado. Quando não conseguimos retirar as ervas daninhas de nossa alma, vamos até os canteiros do outro e tentamos cuidar de terrenos que não nos pertencem. Jesus olhou para aqueles olhos que estavam prestes a matar aquela mulher e retirou o véu das próprias perfeições que eles carregavam em si mesmos. Olhares imperfeitos têm o brilho da perfeição.
Foi somente um olhar de amor que devolveu àquela mulher a chance de recomeçar a vida de modo diferente. O olhar da misericórdia encontrou-se com o olhar de imperfeições. A misericórdia semeou, naquela vida, as flores da primavera de novas alegrias e ela partiu para levar o perfume das flores que agora brotavam em sua alma.
Cada olhar de Jesus mostrava um novo caminho para quem d'Ele se aproximava. O olhar divino tocava a alma humana de cada pessoa e fazia de cada manhã a mais bela experiência do viver. Nunca um olhar foi tão surpreendente com o olhar de Cristo. Quem olha com amor devolve a luz que foi apagada pelas incompreensões de uma noite que está prestes a se despedir.
Uma nova vida começa a existir a partir do momento que mudamos o nosso modo de ver o mundo. Enquanto há muitos olhares que matam, Jesus olha com vida para os canteiros de nossas possibilidades. Enquanto houver um amanhecer, Deus estará olhando com a luz do seu amor sobre cada um de nós. Nos olhares de amor de Cristo descobriremos que os nossos olhares imperfeitos estão prestes a serem sementes de uma nova estação que se chama Amor.
Padre Flávio Sobreiro
Padre da Arquidiocese de Pouso Alegre - MG.
Amar é Ter Outro Olhar Sobre a Vida
Aquilo que está próximo é visto por nós como a maior coisa do mundo. Seja o bem ou o mal.
Meus bens mais íntimos e próximos são os maiores do mundo. Minha catástrofe próxima é incomparável.
Nossa ótica gera muitas ilusões!
A ótica não pode ter esse poder de definir o tamanho e o valor das coisas na existência que vemos.
O Amor é o que deve definir as importâncias da hora e o tamanho de cada coisa.
Até o "amar o próximo", não é uma relação com distância, mas um abrir de olhos. Olhos que antes estavam fechados, ainda que abertos.
- Acorda! Olha o teu próximo precisando de você ai, debaixo do teu nariz!
Amar é acordar para o que não se via.
A questão não é a distância. A questão a se converter sou eu!
Amar é ser salvo das ilusões de ótica. As ilusões do meu eu, do meu olhar.
Esse olhar que não vê... Ou esse olhar que vê mais do que seja verdade.
Seja como for... Amar é ser salvo de mim.
Amar é sempre ter um Outro Olhar sobre a Vida!
Marcello Cunha
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